Citicorp Center: o erro invisível que quase derrubou Manhattan
- Daruca Online

- 21 de jan.
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Atualizado: 24 de jan.
No final da década de 1970, Nova York esteve mais perto de um colapso estrutural do que jamais soube. O protagonista dessa história não foi um furacão, um terremoto ou um atentado — foi um engenheiro confrontado com um erro de cálculo que poderia colocar um arranha‑céu inteiro em risco.
O edifício era o Citicorp Center (hoje 601 Lexington Avenue). O engenheiro, William J. LeMessurier, uma das maiores autoridades mundiais em estruturas de grande porte.
O que se seguiu tornou‑se um dos casos mais estudados da engenharia moderna — não apenas por técnica, mas por ética profissional sob pressão extrema.
Um arranha‑céu inovador — e vulnerável
O Citicorp Center foi inaugurado em 1977 com soluções arquitetônicas ousadas:
Base elevada sobre quatro pilares localizados no meio das fachadas, e não nos cantos
Uma igreja histórica preservada sob o prédio
Um amortecedor de massa sintonizada (tuned mass damper) no topo — tecnologia inédita à época
Essa combinação permitiu o desenho arrojado, mas introduziu uma condição estrutural rara: o edifício reagia de forma crítica a ventos diagonais (quartering winds), que incidem a 45° em relação às fachadas.

O erro descoberto por acaso
Meses após a inauguração, uma estudante de engenharia questionou LeMessurier sobre o comportamento do prédio sob ventos diagonais.
Ao revisar os cálculos, o engenheiro percebeu algo alarmante:
Os nós estruturais haviam sido executados com parafusos, e não com soldas contínuas
O projeto considerava cargas de vento perpendiculares, mas subestimava os efeitos combinados dos ventos diagonais
Sob determinadas condições extremas, as ligações poderiam falhar progressivamente
A conclusão foi devastadora: ventos fortes suficientes poderiam causar colapso estrutural.
O dilema ético
LeMessurier tinha diante de si opções nada simples:
Tornar público o erro, causando pânico imediato
Silenciar e torcer para que o pior nunca acontecesse
Corrigir o problema discretamente, assumindo riscos pessoais, técnicos e jurídicos
Ele escolheu a opção mais difícil.
“Eu sabia que não podia conviver com a possibilidade de alguém se machucar por algo que eu não enfrentei.”
Engenharia sob sigilo absoluto
O plano de reforço foi tão engenhoso quanto delicado:
Placas de aço soldadas foram instaladas em centenas de conexões estruturais
O trabalho ocorreu à noite, para evitar atenção pública
Caminhões entravam e saíam discretamente do prédio
Paralelamente, foi criado um plano de emergência secreto com autoridades municipais e a Cruz Vermelha:
Caso um furacão se aproximasse, 200 mil pessoas seriam evacuadas em silêncio
Durante semanas, cada boletim meteorológico era acompanhado com tensão.
O papel do amortecedor de massa
O famoso tuned mass damper, muitas vezes citado como o “salvador” do prédio, não era suficiente sozinho.
Ele reduzia oscilações, mas não eliminava o risco de falha nas conexões.
O verdadeiro salvamento veio da engenharia corretiva — cálculo, aço, solda e tempo.
O custo — financeiro e humano
O reforço custou milhões de dólares (valores da época), pagos sem alarde.
O custo emocional foi maior:
Medo constante
Isolamento
Angústia ética
A consciência de que um erro técnico poderia ter consequências irreversíveis
Relatos posteriores indicam que LeMessurier enfrentou níveis extremos de estresse, chegando a pensar em desfechos trágicos caso a solução falhasse.
Relato de LeMessurier sobre o caso Citicorp Center:
O alívio — e a sorte
Nenhum furacão atingiu Manhattan durante o período crítico.
As soldas foram concluídas.
O prédio permanece em pé até hoje.
Nova York nunca soube o quão perto esteve do desastre — até anos depois.
Por que essa história ainda importa
O caso do Citicorp Center é estudado mundialmente porque mostra que:
Erros podem acontecer, mesmo com os melhores engenheiros
O verdadeiro teste profissional surge depois do erro, não antes
Ética não é discurso — é decisão sob risco real
E, sobretudo, porque ensina que engenharia é responsabilidade contínua, não um evento encerrado na entrega da obra.
Legado
William LeMessurier não foi lembrado como o engenheiro que errou.
Foi lembrado como o engenheiro que assumiu, corrigiu e protegeu vidas.
Em um campo onde estruturas falham em silêncio, sua maior obra talvez tenha sido não deixar uma falhar.
Texto elaborado para fins de reflexão técnica e institucional.
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